Riverside Tour 2017

Viajar é sair de casa, é ler um livro ou ir ao cinema. É descobrir um novo restaurante ou fazer um novo amigo. Viajar é crescer e descobrir-se a si mesmo fora do teu espaço. Viajar é ousar, querer ir mais além do que o dia a dia nos permite. Viajar é viver um momento que permanece para sempre vivo. Meu nome é Moreno e este é o relato da minha aventura para percorrer o território português, durante 15 dias e quase 3000 km de bicicleta.

Sou natural do Brasil, segundo filho de sete. Minha mãe é portuguesa, das Caldas da Rainha, e meu pai é do Rio de Janeiro, “carioca de gema”. Depois de terminar o ensino secundário saí de casa para uma experiência de um ano na França, a 10000 km de onde cresci. Durante esse tempo trabalhei como voluntário numa instituição para pessoas com necessidades especiais, onde experienciei a realidade de quem vive em função do bem-estar do outro. Também fui ciclista de alta competição em Espanha e Portugal durante 6 anos e actualmente vivo na charmosa capital portuguesa, Lisboa.

Depois de tantos países, em Portugal estou em casa. E, por estar em casa, gosto de saber onde estão ou ficam as coisas. Quero conhecer os meus vizinhos, as pessoas que vivem à minha volta. O padeiro local, o homem da fruta e todos aqueles que passam por mim todos os dias. Mas até onde pode ir essa curiosidade? Até onde podemos ir para conhecer “a nossa casa”? Para responder a essa pergunta é preciso definir o que para nós significa “casa”. Quando estava no Brasil, a minha casa era muitas vezes o abraço da minha mãe e os conselhos do meu pai. Ainda hoje o são, ambas as coisas. Mesmo com a distância, basta uma ligação para encontrar a minha “casa”. Se a minha casa é a minha família, até onde se estende a mesma? Pais, avós, bisavós… Se a minha casa é a minha família, e a minha família está ligada por uma linha cronológica interminável, a minha casa é muito maior do que o meu vizinho, o padeiro local ou o homem da fruta. A família são todos. Sendo eles todos, de que forma é que os posso conhecer?

Por isso a aventura destes 15 dias em bicicleta. Uma aventura destinada a percorrer todo o território português, isto que de forma contínua passei a chamar de “a minha casa”.

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Viajar de bicicleta é como cozinhar uma refeição do zero. Tens de ser tu a escolher os ingredientes, preparar e temperar, controlar a cozedura e por fim cuidar da apresentação. Vives o processo completo, e não vês apenas o resultado como destino, mas como resultado de um percurso. Viajar de bicicleta permite-nos conhecer e viver o percurso em cada detalhe, em cada metro, permite-nos conhecer mais e melhor a nós mesmos, aos nossos limites, as nossas fraquezas  – e isto resulta num crescimento pessoal sem precedentes. O ser humano é uma máquina incrível, capaz de adaptar-se ao meio onde está inserido e capaz de ultrapassar qualquer obstáculo. Mesmo assim, somos, enquanto humanos, seres limitados E é aí que entra a surpreendente ligação máquina – ser humano: a bicicleta, tornando-o a este num ser mais rápido, capaz de ir mais longe e com mais eficiência.

Se o vento sopra com mais força, se o sol brilha com mais intensidade, se enfrentamos uma subida ou se desfrutamos de uma descida – vivemos o percurso na sua totalidade. O destino acaba por tornar-se o início do próximo percurso, e, assim por diante, é um ingrediente constante, torna-se cada metro percorrido, cada quilômetro ultrapassado, cada dia e cada esforço. Os destinos complementam-se e transformam-se.

Um aspecto importante quando viajamos de bicicleta é sermos capazes de transportar não só a nós mesmos, mas também o necessário para a viagem. O necessário pode variar: pessoalmente, gosto de viajar “leve” e gosto de aventura. Optei, portanto, pelo campismo. O saco cama, uma almofada e um colchão insuflável são artigos que garantem um conforto razoável para descansar à noite, sem ocupar muito espaço. Por último, uma tenda, que seria o meu abrigo durante os 15 dias.

O percurso começou em Lisboa, assim como em 1500, sob o abrigo dos Jerónimos, junto ao Padrão dos Descobrimentos em Belém. Durante cinco dias percorri as estradas da costa portuguesa até alcançar Caminha, mas não sem antes passar por Fátima, Aveiro e a formosa cidade do Porto. No Minho descobri o Tabuã e a Praia Fluvial que acolhe, em Paredes de Coura, o festival de música com tradição desde 1993. Pela Portela do Homem conquistei o Gerês e foi em Mirandela que, mesmo não sendo um aficionado, provei uma das duas famosas alheiras. Pela Alfândega da Fé, percorri o árido território transmontano sob um calor que não deu tréguas. No Fundão, provei as melhores cerejas de sempre e no Alentejo não faltaram praias fluviais para refrescar os dias quentes. A estrada N125, que atravessa o Algarve, mantém o seu charme de “estrada praiana”, os buracos e as centenas de vendedores de laranjas. A sensação de pisar o “fim do mundo” só é equiparada a uma Sagres muito fresca em Sagres, ao final de 180km de bicicleta, e antes de retornar a Lisboa.

Viajar de bicicleta é como fazer uma tatuagem: marca o corpo e já não se esquece nem um segundo.