Chove mas não molha

Estou sentado num colchão que faz de sofá e cama na cozinha, vigiando o Tagine, enquanto Abdul assume o negócio familiar no andar de baixo. Os clientes são constantes, e vêm à procura de tudo, desde ovos, pão e água, até tijolo, cimento e tinta. Culpa da sua generosa hospitalidade, com a mesma frequência que eu adiciono água ao Tagine, ele sobe as escadas a correr para perguntar se estou bem.

Entre as várias corridas, ele vai me contanto pouco a pouco a sua vida. Cresceu no povoado onde estou e, assim como as 10 famílias deste povoado, e as outras centenas deles acima e abaixo de mim, fazem parte das montanhas do Atlas, como a própria rocha que constitui a montanha. Completou os seus estudos de economia em Agadir e agora está à procura de trabalho que, se Deus quiser, irá encontrar. É irmão de dois rapazes e duas meninas. O irmão mais velho já casou e vive em Marrakech, a primeira filha também já casou. Embora com vontade de encontrar o seu trabalho, Abdul partilha também a imensa paixão que sente pelo povoado onde nasceu e cresceu. Embora esteja longe da cidade, reconhece que consegue ser muito feliz naquela que chamou de, ele mesmo, outra realidade. Mais simples, mais humano disse ele.

Conheci-o também eu enquanto cliente à procura de pão. Não demorou muito para convidar-me a dormir e jantar com a sua família. Não consigo deixar de ser surpreendido pela simpatia que me é dada pela gente desta terra. Sinto-me grato, e quase que ingrato por tudo que tenho e pelo tão pouco que dou.

Enquanto espero pela nova visita do Abdul, também quero falar do Alex. Um francês que conheci em Ouarzazate e que, também ele, convidou-me a dormir. O Alex hoje é um espírito livre, há cerca de 2 meses que está em África. Desceu de Lille até o Mali de carro, onde ficou durante algumas semanas vivendo junto dos povoados, em suas condições mínimas. Depois da experiência, voltou a subir de carro até o Marrocos, onde pretende ficar até Outubro. Para além de experimentar a cerveja marroquina Casablanca, também experimentei o banho marroquino, o iogurte marroquino, lentilhas marroquinas, sopa marroquina e, obviamente, finalizamos tudo com o chá de menta, por suposto marroquino.

Quis partilhar estes dois encontros porque ambos deram-se pela mesma razão: a minha bicicleta. Para o Alex, foi o que lhe deu curiosidade para descobrir de quem era a bicicleta: sendo de Lille, conhece bem a Decathlon. Para o Abdul, segundo o próprio, é fantástico percorrer distâncias longas tão próximo dos locais por onde se passa. No entanto, não é fácil pedalar no calor e subir montanhas de bicicleta. Por isso, decidiu convidar-me para o chá, porque tinha muitas perguntas sobre viagens, bicicletas e tantas outras coisas que lá foram surgindo.

A minha visita ao Marrocos está próxima do fim. No entanto, não consigo impedir-me de imaginar a próxima aventura nesse continente intrigante e bonito, mas tão rígido para com a sua gente. Acredito que as pessoas estão onde podem estar, e a gente daqui é resistente e, de forma religiosa, resiliente. Nada lhes tira o sorriso do rosto, nem mesmo a tempestade de dois dias atrás que derrubou a estrada ao pé do povoado do Abdul, e que lhes dá acesso à cidade. É uma característica comum das pessoas que vivem afastadas, disse ele. Se a vida não lhes dá razão para sorrir, sorriem à mesma. Porque, mesmo quando a vida é dura, somos nós mesmos que decidimos se vamos viver duramente tristes ou felizes. Se a vida não te dá razões para sorrir, inventa.

8 pensamentos sobre “Chove mas não molha

  1. Marielza De Bona

    Moreno, tua gratidão se irradia, meu querido, porque exatamente estou eu aqui sentindo imensa gratidão por vc nos apresentar o Driss, o Abdul, o Alex e também esse Moreno que me parece novo a cada “subida do Abdul pra ver se vc está bem”. Aqueles que não fazem incursões no mundo, nem no além no além Atlas, nem ao encontro do outro ou de si mesmo, podem fazê-lo pelas tuas mãos…ou melhor, pelos teus pés, pela tua alma em sintonia com o Driss, com o Abdul, Alex, porque encontros são sintonia. Lama que desse da montanha na tempestade, bicicleta nas costas por kilômetros, gratidão e “ingratidão”, tudo é sintonia…porque que procura acha ! De uma coisa tenho certeza: essas criatura valiosas, teus achados de jornada, também se regozijam no teu sorriso, porque esse sorriso eu conheço muito bem! E sempre me fez bem.

    Gostar

  2. Anónimo

    Moreno, ler os seus relatos me deixa extasiada de vida. Obrigada por dividir tanta vida e abundância. Abraços carinhosos, a vc e aos que vc compartilha aqui com a gente.

    Gostar

  3. Dedé Namura

    Moreno, congratulações. Você está se saindo um ótimo escritor. Sério!
    Você já pode começar a escrever um livro sobre as suas viagens e as pessoas que encontra pelos caminhos. Só falta uma editora! Beijos

    Gostar

  4. Viviana Bosi

    Seus textos são muito inspiradores, querido Moreno. São uma lição para nossa vida. Leio e sinto que estou pedalando no meu cotidiano, com desertos e montanhas árduas. Mas fico mais grata e corajosa. Obrigada! beijos, Viviana

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s