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Bikepacking in Morocco, 2018

Lille para Lisboa, 2018

Portugal de Bicicleta, 2017

Embora o título não seja meu, tampouco é pra fazer referência (aos que fariam) ao livro do Lance Armstrong. Pois embora eu continue a admirá-lo enquanto personagem de um desporto (se não é o caso para ti, fantástico, não podemos ser todos iguais) a Volta à França não vem para aqui chamada.

De qualquer forma é o título ideal para vos contar a história do Driss (ou Dris, ou Driz), que vive com a família num vilarejo entre Taliouine e Tasnakht, sensivelmente a 50 km entre uma cidade e outra. Quem viaja de carro pela N10 nunca o irá conhecer. Mas se tiveres a sorte de apanhar a estrada P1739 e no km 10 (mais ou menos) apanhar o trilho de terra que atravessa as montanhas que a Estrada Nacional não te deixa conhecer, vais ter a oportunidade de descobrir dezenas de vilarejos tão antigos e misteriosos como as montanhas que nunca acabam.

Não vou mentir. É um caminho duro logo ao início, e só fica mais fácil quase a chegar a Tasnakht, onde é possível reabastecer-se com água antes de continuar a batalhar com o sol, a poeira e o vento. Porém, não existem caminhos duros que não guardem locais fantásticos. Nesse caso específico, para além das paisagens alucinantes que já são um hábito, as pessoas destas vilas enriquecem ainda mais, com um encanto terrivelmente humilde, mas incrivelmente genuíno. Num destes vilarejos, como também já é hábito, furei o pneu. Enfim, faz parte do processo. Já não tenho câmaras de ar sem remendos.

Como é natural de mim mesmo, fiquei fodido com a situação repetitiva. Até mandei um “AFF OUTRO FURO?!?!” que foi suficiente para assustar uma senhora que se estava a esconder do sol (e de mim, que não a vi) debaixo de um arbusto. Da mesma forma, o menino, que com a mesma estava, perguntou-me qual era o problema – apontei com o dedo e ele entendeu. Deu-me um sorriso e apontou para o céu como quem diz “foi ele, é o destino” . Tira roda, tira câmara, tira o espinho gigante preso no pneu, pega câmara, põe a câmara, enche o pneu, guarda a câmara, põe a roda e, quando estou pronto para continuar, ouço o mesmo rapaz atrás de mim a correr com aquela que assumi ser a sua bicicleta, mas fiquei a saber que a mesma serve toda a família. Queria acompanhar-me para não me perder, mostrei que tinha um mapa e GPS, mas nada disso tirou a vontade de ser ele a indicar o caminho. Sem perceber até onde ele viria, acenei obviamente dizendo que sim, e lá fomos os dois. Não vou estender-me por centenas de linhas para contar-vos sobre a mesma virtude que tenho encontrado todos os dias: generosidade. O Driss acompanhou-me mais ou menos durante 10 km, e o caminho foi duro e árido. Com uma bicicleta que não é só sua, de boné e chinelo, fez questão de dar-me força durante alguns quilómetros. Nunca vou entender essa disposição destas pessoas de serem simpáticas e generosas com quem não conhecem.

Faço a comparação com o pessoal que treina em Portugal e nunca para, ou para e reclama, quando alguém fura. Imagino que para o Driss e todas aquelas famílias que vivem em lugares com tão pouco, mas felizes, a fé é o que os faz serem da maneira que são e interagir com a vida como interagem. Só posso crer que é a fé o motor da esperança desta gente. Isso não quer dizer que estou convertido, quer dizer apenas que admiro a entrega das pessoas a algo tão abstrato e incerto, mas que, admito, é essencial. É inevitável que compare as realidades que conheço; a minha e a do Driss. Não acredito que seja justo, mas por outro lado, conheço tantos que têm tanto e reclamam da vida tanto quanto. São infelizes. Agradecer pelo pouco ou muito que temos é o único caminho para vivermos em paz numa vida que resposta alguma vai dar. Aprendi mais em 10 km com o Driss do que milhares com outros. É um tanto quanto amargo constatar isso, mas assumo ser necessário.

Que seja a fé então a realização disso tudo. Não é preciso ir aos domingos à Igreja. Aqui rezam em qualquer lugar, porque é que há de ser de outra forma. Tenham fé! E, se tiverem, que seja em todos os aspectos. Estejam atentos à vossa volta para quem precisa, e agradeçam por tudo aquilo que têm. Hoje o rio corre, amanhã pode secar. Estar seco hoje, não retira o bem que fazia enquanto corria.

6 comments on “Is not about the bike

  1. Anónimo diz:

    O inusitado sempre será recompensador para quem tem o coração bom. Continue em paz.

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  2. Ricardo Athias diz:

    O inusitado sempre será recompensador para quem tem o coração bom. Continue em paz.

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  3. Gloria diz:

    chegar a essas conclusões pode levar a vida ou 10km…
    Obrigada por compartilhar

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  4. Maria Fernanda Martins diz:

    Lindo!! “Andar com fé…Ela não costuma falhar”!!!

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  5. Antonieta Miranda diz:

    Moreno, tenho aprendido muito contigo também.

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  6. top… agradecer o pouco que temos é o segredo para viver em paz.

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