Esperança mais forte onde não há vida

Antes de sair de casa para apanhar o avião até Agadir, tinha uma única coisa em mente e apenas uma experiência queria ter. Pedalar com menos, onde há menos de tudo. Por um lado, menos violência, menos ansiedade, menos preocupação. Nos dias que correm, durmo com a cabeça para fora da mini-micro-tenda que trouxe, com a bicicleta solta logo ao lado. As paragens nos vilarejos para procurar água tornaram-se mais fáceis uma vez que descobri que posso deixar a bike encostada em qualquer lado; há muito menos roubo aqui (ou pelo menos é o que me dizem). Por outro lado, assim como há menos, há menos de tudo. Menos infraestrutura, menos recursos, menos possibilidades para aqueles que pela sorte ou pelo azar, vivem nos povoados semi-abandonados do lado de cá do Atlas. Os recursos mínimos são significativos. Por exemplo, hoje conheci um senhor que todos os dias (supostamente) fica à beira da estrada de terra à frente da sua casa à espera de apanhar uma boleia até à cidade mais próxima (cerca de 60 km). É pastor, Mohamed, nasceu e sempre viveu ali, e não perde um só dia a esperança de que virá um carro para lhe dar a boleia que coloca comida na mesa. Compreendam, ele vive das suas cabras, e tudo o que delas provêm, ele costuma vender peles em Irherm, aproveitando à visita à cidade para comprar tudo o que precisa. Se comprendi bem o que ele queria dizer, por vezes são semanas até que passe alguém. Não é sempre, mas já aconteceu. Olho para a minha bicicleta e penso eu “se ao menos o a Mohamed tivesse uma também”. Não acredito que existam experiências ruins, cabe a ti descobrir como crescer e evoluir através destas experiências que só terminam quando estás morto.

Já tenho quase 500 km no GPS, confesso que o calor desgasta mais do que a distância que, ao longo das horas mais quentes, não passa.

Quem disse que o deserto, ou uma pequena parte dele, é plano, não é bem assim. Embora, confesso que, após o primeiro encontro com o Anti-atlas, com uma atitude máxima de 1900m, as pequenas inclinações da estrada que acompanham o formato das dunas não é tão mal assim.

A parte final e mais dura começa em Agdz em direção à Ouarzazate em 3 ou 4 dias, onde vou gastar mais alguns dias a subir montanhas até chegar em Marrakech. A meta é subir ao Jbel Toubkal, se o tempo não permitir, até o Refúgio do Toubkal, no entanto, a meta vai refazendo-se dia após dia. Não existem planos certos, só mesmo a nossa capacidade para encontrar soluções.

Já vi 900 esquilos na estrada e 0 dromedários. Não entendo.

6 pensamentos sobre “Esperança mais forte onde não há vida

  1. Anónimo

    Viajante cada dia mais moreno e mais sábio! Sim, Moreno querido, o próprio caminho é o que mais nos ensina, né?! Como disse o Manoel Serrat: “caminhante, no hay camino – se hace el camino al andar” 🤗☀️

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  2. Isaura Accioli

    Moreno, quanta coragem e disposição! Eu lhe desejo o melhor caminho, o melhor repouso, grandes descobertas e alegrias. Obrigada por me mostrar este mundo desconhecido, o cotidiano das gentes. Fui aluna e sou amiga de sua mãe.

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  3. Laura Rosa

    moreno, estou amando tudo, O que você escreve, o que descreve, e o que sinto que há entre linhas, mais do que conta.estou anotando frases fantásticas. coisas que você sente e nos conta.Não o conheço pessoalmente, sou aluna de sua mãe. mas estou viajando com v
    ocê.

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