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Para quem procura descobrir mais sobre si, viajar é sem dúvida uma maneira eficaz de o fazer. Porém, se quando vais de viagem, levas contigo tudo aquilo que influencia seres quem és, não há espaço para seres de outra forma. É a metáfora do copo cheio, dita de outra maneira com o mesmo sentido. Isso não quer dizer que vais ter sempre de viajar sozinho, até porque, se estás satisfeito contigo mesmo, aproveita e vive a partilha. No meu caso, não procuro viajar sozinho, mas a viagem acaba sempre fazendo isso por mim. Hoje já começo a habituar-me a falar sozinho depois de dias em silêncio. Por outro lado, como estou sozinho, também por gostar de conversar e finalmente porque, segundo os próprios, eu tenho uma cara chapada de marroquino, não sinto a menor dificuldade em sentar no café e puxar conversa com o povo campesino que faz contraste com a paisagem árida que rodeia Tiznit. A verdade, meus caros, é que não sinto dificuldades em sentir-me em casa num país que não é meu.

A única coisa que impede o meu completo disfarce é o fato não conseguir comunicar-me no idioma local que, diga-se de passagem, não é só árabe. Isso é no norte – aqui, mais ao sul, é uma coisa completamente diferente. São sons que nunca ouvi antes, saídos das gargantas de um povo queimado pelo tempo, mas que possui um coração enorme igual ao do meu pai, e um sorriso encantador igual ao da minha mãe. Sabe-se lá se não sou daqui e não sei.

O caminho entre Agadir e Tiznit não foi longo; no entanto, relembro que é a minha primeira vez de bicicleta por estas bandas e devo dizer que fui apanhado desprevenido por um vento contrário à minha direção, que só não era o pior porque, aqui, o calor não é como o calor lá de casa.

Tiznit é uma cidade bem pequena com um imenso jardim logo à entrada, ao lado das piscinas, próximo da medina. É a cidade onde inicia a rota das caravanas que vai guiar-me pelo deserto até Agdz, durante mais ou menos 8 dias. Confesso que ainda estou a tentar orientar-me no que diz respeito a comida e água. Porque jogo seguro, tenho sempre 8 litros comigo, e porque sou mais seguro ainda, comprei 2 kg de tâmaras. Se o Touareg faz, é porque funciona.

Atravessar o Anti-atlas não foi fácil, e o isolamento aumenta a cada quilómetro percorrido. Até quando passamos pelas vilas integradas nas montanhas, é possível sentir uma atmosfera diferente, o contato humano é a única maneira de fazer contato, e a simplicidade de ver as mesmas 40 pessoas todos os dias aumenta a generosidade quando vêm pessoas de fora (embora eu tenha que repetir algumas vezes que não sou de cá). A partir de Anezi, o caminho foi todo com subidas de pedra com pendentes de quem não anda de bicicleta. Passei o dia a ver 10, 11, 15….18% no GPS.

De resto, está tudo bem. Confesso que habituar-me às temperaturas que sobem a cada metro ainda é um desafio. Porém, já tenho um turbante oferecido, pelo que, pelo menos, proteção pra cabeça eu tenho.

4 comments on “No país que não é meu

  1. Gloria diz:

    Uau Moreno
    Gosto de ler o que c escreve!
    Com certeza inesquecível
    Parabéns pela determinação!
    Abração Gloria

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  2. Maria Fernanda Martins diz:

    Continue, Moreno!! A bicicleta e acesse era assim, lindamente!! Bjs

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    1. Maria Fernanda Martins diz:

      Ops… Corretor!! Continue a bicicletar e a escrever assim, lindamente!!

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  3. Marília diz:

    Berbères ❤

    Um dia, numa viajem sozinha, tive a honra de me sentar com mulheres no pé de montanhas próximo a Ouarzazate. Aprendi assim a moer Argan e extrair seu óleo. Que linda sua viajem. Me fez lembrar da minha e de experiências muito transformadoras. Agradeço por vc compartilhar aqui. Grande abraço.

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