Conversa de café

Dos momentos que não passam, esperar em filas de aeroporto é daqueles que gosto menos. No entanto, e também porque desta vez toda a espera é para começar uma nova aventura de bicicleta, vou deixar que a frustração de esperar tanto tempo seja o momento de reflexão antes de estar no meio do nada com uma questão a martelar a cabeça: “que raios ando eu a fazer?”.

A eterna questão sobre o propósito de cá estarmos não desaparece só porque decido carregar a bike com malas, deixar tudo aquilo que considero essencial para ter conforto, para pedalar dias sozinho num país que não conheço. Longe disso. Seja onde, e independentemente da maneira como lá cheguei, as minhas questões existenciais (assim como as tuas) estarão sempre presentes. A diferença é a resposta que somos capazes de aceitar. Por exemplo, no conforto da minha casa, as soluções para a ansiedade de controlar o futuro podem aparecer simplesmente por ver uma série no Netflix. No trabalho, se estás num escritório, metes uns fones e esperas que a música abafe o descontentamento que te impede de ver que, do futuro, só o futuro sabe. Por outro lado, e num aspecto mais pessoal, ao longo das minhas viagens, as respostas tendem a adoptar a simplicidade mais complexa que já senti: sobrevivência.

Se sou vivo, questiono-me sobre o porquê de o estar. Se estou vivo e fisicamente desafiado, procuro maneiras de sobreviver e somente aí consigo valorizar o milagre de estar vivo, em lugar de questionar o ser vivo. Estamos porque estamos, e não acredito que enquanto estivermos vamos encontrar uma resposta mais precisa. Da mesma forma, somos porque queremos, e querer é a única força que não conhece limites.

Estar vivo é sentir-se vivo com o propósito de continuar vivo, seja da maneira que for. Para alguns, é esperar a sexta-feira e curtir dois dias de satisfação; para outros, é atravessar desertos com a esperança de que, caso sobrevivam, encontrem um futuro mais sorridente e que contribua para que continuem vivos.

Não sei qual será a minha opinião sobre o significado de cá estarmos em alguns dias. Hoje sei que tenho incalculável sorte por ter a possibilidade de dar-me ao luxo de reflectir sobre as minhas reflexões.

 

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