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Bikepacking in Morocco, 2018

Lille para Lisboa, 2018

Portugal de Bicicleta, 2017

Há cerca de uma semana disseram-me assim: “Moreno, estás viciado nisso das viagens de bicicleta”. Não sei se a interpretação era pra ser positiva ou negativa; nem sempre é fácil desfigurar as intenções das pessoas. De qualquer das formas, e como deve sempre ser, dei início ao processo de reflexão desta constatação.

De início deixei de lado a palavra “vício” que, da sua origem latina “vitium”, significa defeito ou falha: um hábito que degenera a vida de quem o tem. Obviamente nem as minhas bicicletas, nem as minhas viagens poderiam incluir-se num leque de coisas que não me fazem ser uma pessoa melhor; exactamente o oposto para ser sincero. A bicicleta obriga-me a aceitar a minha condição limitada e mediocre que, por inatividade durante alguns dias, mesmo que pratique todos os dias do ano, a minha capacidade de dar aos pedais é reduzida. Quer dizer que para conseguir avançar e propor-me desafios esporádicos (porque é o que me é hoje possível) é preciso continuar a fazê-lo sempre, todos os dias. É um processo contínuo, mas nunca igual. Eu acredito que: a bicicleta potencializa o ser-humano sem perder a sua essencia. Mais rápido, mais resistente e eficaz, mas sempre limitado à capacidade pessoal e individual. És tão rápido/resistente/eficaz quanto consegues ser com a tua própria força.

Sobre as viagens, lamento, mas não podem ser um vício meu, nem um vício de ninguém. Viajar é crescer sem ficar velho, é evoluir através das vivências com pessoas que não conheces, que não te conhecem, em lugares que não são teus por hábito onde não te encaixas e não consegues controlar. Viajar é libertar-se das correntes do controlo e descobrir no que tornas-te quando não podes ser quem és.

Sobre fazer viagens sozinho ou acompanhado, ao meu ver representam maneiras diferentes de abordar o desafio que é carregar uma bicicleta com malas e rumar em direção à lugares desconhecidos. Viajar sozinho é conviver contigo próprio e aprender a fazê-lo. Eu para mim mesmo, no ínicio, devo ter sido das piores companhias que já tive. Ora és alguém capaz e determinado, noutras ocasioões basta que o vento não sopre na melhor direção para questionares o porquê de tudo aquilo. Os dias mais duros, com muitas subidas, representam exactamente aquilo que vivi durante as 3 semanas de viagem. A primeira subida ultrapassas com vontade e satisfação, aprecias a paisagem fantástica e desfrutas do facto de conquistares os cumes. Com o passar dos quilómetros, e subidas, o ânimo é pouco para a estrada que continua igual. Com o sol no seu ponto mais alto, o teu ponto mais baixo é evidente. Foram nesses momentos que mais senti a ausência de outro alguém que motiva-te simplesmente por estar ali. Ser irônico em situações difíceis é mais fácil quando temos alguém para o fazer connosco, caso contrário cabe a ti mesmo fazer rir e dar risada.

Há sempre dois lados de uma mesma moeda. Quando chove não faz calor e quando está muito calor, ao menos não chove. Pessoalmente, o lado fanstástico de viajar sozinho é conhecer-se a si mesmo e ter de viver com a pessoa que descobre que és. Por outro lado, a tomada de decisão, sem qualquer confirmação emocional é sem dúvida um desafio que, ao tornar-se repetitivo, também torna-se cansativo. Quando decidimos em conjunto, divide-se o peso da decisão. Se vamos pela direita, se vamos pela esquerda. Pedalamos durante a noite, ou vamos acampar nesse campo duvidoso? É sempre mais fácil tomar decisões determinantes com mais cabeças a reflectir sobre o assunto. Quando estamos sozinhos, só nos vale a nossa opinião  sobre o que é, e o que poderá ser. É verdade que com o passar do tempo, essas decisões deixam de ser frequentemente tidas como “essenciais” e ao correr dos dias e semanas tornam-se um hábito natural. No entanto, há sempre momentos em que questionava-me o juízo e o porquê de avanturar-me sozinho. Não há grande razão para tal, até porque eu considero-me uma pessoal sociável. No entanto, tanto o sou como; consigo não o ser. Seja como for, a verdade é que quando viajo sozinho de bicicleta, quase nunca estou efectivamente sozinho. Até mesmo quando estive perdido nos Pirinéus, passei por tantas pessoas diferentes. Certamente não devem sair muito de onde estavam, pois da maneira como eram, encaixavam-se muito bem naquelas paisagens selvagens, sem grande “pegada” humana para assegurar o progresso.

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Estou há algumas linhas imaginando uma maneira de finalizar este texto, mas como não encontro vou fazer como fazem as telenovelas: ditar o primeiro parágrafo do próximo capítulo para dar vontade de saber o que vai acontecer. Para marcar 2018 como o ano dos contrastes, vou aventurar-me mais uma vez numa viagem de bicicleta. No entanto, desta feita, troco a previsibilidade Européia pela incertidude Africana, a floresta húmida dos Pirineus pelo ambiente árido do deserto e as vacas da Suiça pelos camelos do Sahara. Deixo os alforges matacões em casa, e opto pelo minimalismo do Bike Packing, passando de 60L para 22L de bagagem. Acabam-se as estradas de alcatrão, para pedalar num percurso com partida em Agadir, atravessando os Anti-atlas, pela Rota das Caranavas, incluindo a ascenção ao Toubkal, ponto mais alto da cordilheira do Altas a 4100 metros acima do mar, finalizando na fantástica cidade de Marrakesh, depois de quase 1400 km de bicicleta. Mal posso esperar para começar-vos a contar esse novo capítulo, no entanto, vou ter que conter o estusiasmo pois ainda há coisas por contar da último!

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