Sem limites de voltas

Quem pedala sabe: nenhum dia é como o anterior e hoje não vai ser como amanhã. Assim como a vida, andar de bicicleta é submeter-se à possibilidade de que tudo que começa bem pode acabar mal e, sobretudo, a certeza de que mesmo se estiver tudo mal, tudo pode sempre acabar bem. Os mais experientes dizem (e sabem bem eles) que “são as voltas que a vida dá” e não poderia ser diferente quando “damos voltas ao pedal” em cima de uma bicicleta. A simbiose perfeita. Pedalar significa e simboliza sermos melhores, mais rápidos e resistentes entre os limites daquilo que realmente somos: humanos.

Com uma introdução destas, só me resta falar destas fantásticas máquinas feitas de carne, osso e metal: ciclistas. Feitos duma matéria extinta em abundância, não há nada que os pare. Chuva, sol, vento… neve! Nada consegue deter estes seres que, com qualquer desculpa, fogem para a estrada, terra, monte e qualquer outro terreno em cima de uma bicicleta. Mas… Nem sempre é fácil manter o foco e a motivação! Uma das formas que encontrei de manter as “rotações” e ser capaz de aventurar-me repentinamente numa grande aventura de bicicleta [como naquela que fiz na semana passada com um colega do trabalho] é de participar com regularidade nalguns eventos de ciclismo em Portugal, preferencialmente eventos de ciclismo de estrada, uma vez que foi este tipo de disciplina que mais pratiquei antes da descoberta das viagens de bicicleta. Os GRANFONDOS em 2018 explodiram em Portugal. Hoje é possível participar em 1 a cada 15 dias. Não é por acaso, para além de ser uma possibilidade de desfrutar e sentir a adrenalina de andar com motas e carros com sirenes e estradas fechadas, assim como na Volta à França, sem ser um ciclista de alta competição, é a oportunidade perfeita para desafiar os amigos, conhecer uma nova região do nosso país ou simplesmente pedalar e conviver com completos desconhecidos!

Por essas razões também eu faço as malas, acordo de madrugada, sob chuva e frio para pedalar centenas de quilómetros pelo prazer o fazer! Acompanhado de 3 amigos do trabalho também apaixonados pelas bicicletas, estive presente no GRANFONDO Montemuro, com partida e chegada em Cinfães, um concelho que muito sofre com o frio implacável do inverno e o calor escaldante do verão, mas que permanece um paraíso para as vistas, cortado unicamente pelo Rio Douro que garante a brisa fresca durante os dias mais quentes do ano.

O desafio não era fácil: 120 km com muita serra pelo caminho. Para a felicidade de todos a água reservada para aquela região caíra toda durante a noite e, com 30 minutos para a partida, já não chovia e as nuvens já dissipavam-se, anunciando um dia perfeito para a prática de ciclismo! Juntamente com os meus colegas, também juntou-se um quarto que ao final do dia, acabou a minha contra-parte durante todo o percurso.

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Ciclismo é sobretudo um jogo de equipa. Eu sei, nem sempre é claro para o espectador: cada um pedala a sua bicicleta. No entanto, assim como a vida, pedalar vai muito para além de simplesmente dar voltas ao pedal na esperança de que a velocidade aumente e os quilómetros passem. Assim como na vida, passamos por momentos maus, onde contamos com o “ombro amigo” para apoiar-mo-nos e seguir em frente.  No ciclismo não é diferente, um ciclista ajuda o outro quando é preciso, sem dizer (quase) uma palavra. O fato de não estarmos sozinhos, de sermos percebidos pelo outro que abranda quando é (e se) preciso, determina o nosso sucesso pessoal. Para quem gosta de análises, o ciclismo é um bom exemplo para resumir uma vida inteira.

No princípio é tudo novo, tudo é uma novidade e todos estamos muito motivados para começar. Primeira metade já não estamos tão bem, passamos por dificuldades e começamos a perceber que ainda só vamos na metade do percurso. A partir daí, como na vida, dependemos uns dos outros para avançar. É verdade, também podemos chegar sozinhos, no entanto, vamos mais longe quando acompanhados. A escolha é sempre nossa e cabe a nós procurarmos fazer a melhor. Uma coisa é certa, não vale a pena percorrer centenas de quilómetros e passar milhares de horas em cima de uma bicicleta sem ter um amigo com quem partilhar. Assim é, também, a vida.

Faltam menos de 3 semanas para partir para a minha aventura de mais de 4000 km em bicicleta, é hora de começar a organizar os meus alforges e decidir quanto vai pesar a minha casa durante os 22 dias de viagem!

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